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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Era uma vez... eu! Clarice Lispector


E acima da liberdade, acima de certo vazio crio ondas musicais calmíssimas e repetidas. A loucura do invento livre.

Água Viva

Criação

Criar de si próprio um ser é muito grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos.

Água Viva

Morrer com Vida

Quero morrer com vida. Juro que só morrerei lucrando o último instante. Há uma prece profunda em mim que vai nascer não sei quando. Queria tanto morrer de saúde. Como quem explode. Éclater é melhor: j'éclater. Por enquanto há diálogo contigo. Depois será monólogo. Depois o silêncio. Sei que haverá uma ordem.

Água Viva

Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo.


Água Viva

Realidade

Cada um de nós é um símbolo que lida com símbolos - tudo ponto de apenas referência ao real. Procuramos desesperadamente encontrar uma identidade própria e a identidade do real. E se nos entendermos através do símbolo é porque temos os mesmos símbolos e a mesma experiência da coisa em si: mas a realidade não tem sinônimos.

Água Viva
Sei que depois de me leres é difícil reproduzir de ouvido a minha música, não é possível contá-la sem tê-la decorado. E como decorar uma coisa que não tem história?

Água Viva

Só de ti

{...} Mas como fazer se não te enterneces com meus defeitos enquanto eu amei os teus. Minha candidez foi por ti pisada. Não me amaste, disto só eu sei. Estive só. Só de ti. Escrevo para ninguém e está-se fazendo um improviso que não existe. Descolei-me de ti.

Água Viva

Grita e pulula

Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula. E é sutil como a realidade mais intangível. Por enquanto o tempo é quanto dura um pensamento.


Água Viva


it vivo

A transcedência dentro de mim é o 'it' vivo e mole e tem o pensamento que uma ostra tem. Será que a ostra quando arrancada de sua raiz sente ansiedade? Fica inquieta na sua vida sem olhos. Eu costumava pingar limão em cima da ostra viva e via com horror e fascínio ela contorcer-ce toda. E eu estava comendo o it vivo. O it vivo é o Deus.

Água Viva


Rosto nu

Antes do aparecimento do espelho a pessoa não conhecia o próprio rosto senão refletido nas águas de um lago. Depois de certo tempo cada um é responsável pela cara que tem. Vou olhar agora a minha. É um rosto nu. E quando penso que inexiste um igual ao meu no mundo, fico de susto alegre. Nem nunca haverá. Nunca é o impossível. Gosto de nunca. Também gosto de sempre. Que há entre nunca e sempre que os liga tão indiretamente e intimamente?

Água Viva

Ecos de Domingo

Agora é dia feito e de repente de novo domingo em erupção inopinada. Domingo é dia de ecos quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas - de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco.

Água Viva

Vivo de lado

Não dirijo nada. Nem as minhas próprias palavras. Mas não é triste, é humildemente alegre. Eu, que vivo de lado, sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.

Água Viva
Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que não tenho ido a Ele. Que o Deus venha, por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Ás vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado.

Água Viva

Manhãs puras

Estou melancólica. É de manhã mas conheço o segredo das manhãs puras. E descanso na melancolia.


Água Viva

Olhos em brasa

O que te escrevo não vem de manso, subindo aos poucos até um auge para depois ir morrendo de manso. Não: o que te escrevo é de fogo como olhos em brasa.

Água Viva

Missão

Para cada um de nós - em algum momento perdido na vida - anuncia-se uma missão a cumprir? Recuso-me porém a qualquer missão. Não cumpro nada: apenas vivo.

Água Viva

Compreensão

Mas se eu esperar compreender para aceitar as coisas - nunca o ato de entrega se fará. Tenho que dar o mergulho de uma só vez, mergulho que abrange a compreensão e sobretudo a incompreensão. E quem sou eu para ousar pensar? Devo é entregar-me. Como se faz? Sei porém que só andando é que se aprende a andar e - milagre - se anda.

Água Viva

Verdade Espantada

Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que ás vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.

Água Viva

O que te direi?

{...}O que te direi? te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? ai de mim, que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão [...] À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios.

Água Viva

Agudo de Felicidade

Algo está sempre por acontecer.O imprevisto improvisado e fatal me fascina.Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso.Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes.Tais momentos são o meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.


Água Viva 

Ulisses e Clarice

Era uma vez... Era uma vez: eu!
Mas aposto que você não sabe quem eu sou.
Prepare-se para uma surpresa que você nem
adivinha.
Sabe quem eu sou? Sou um cachorro chamado
Ulisses e minha dona é Clarice. Eu fico latindo para
Clarice e ela — que entende o significado de meus
latidos — escreve o que eu lhe conto. Por exemplo,
eu fiz uma viagem para o quintal de outra casa e
contei a Clarice uma história bem latida: daqui a
pouco você vai saber dela: é o resultado de uma
observação minha sobre essa casa.

Quase de Verdade

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